Poucas empresas na história da tecnologia tiveram um impacto tão profundo e tão diversificado como a Motorola. Nasceu praticamente sem orçamento, ajudou a vencer uma guerra mundial, levou o homem à Lua e, mais tarde, foi pioneira na revolução da telefonia móvel.
1928: As origens: Galvin Manufacturing Corporation

Tudo começou em Chicago, Illinois, a 25 de setembro de 1928, quando dois irmãos, Paul V. Galvin e Joseph Galvin, fundaram a Galvin Manufacturing Corporation com apenas 565 dólares no bolso. O contexto era complicado: o mundo estava prestes a mergulhar na Grande Depressão, e a indústria eletrónica era ainda um campo experimental e arriscado.
O primeiro produto da empresa foi um dispositivo que permitia que os rádios domésticos da época funcionassem diretamente da tomada de corrente alternada, em vez de dependerem de baterias caras e de curta duração. Era um produto simples, mas brilhante para a época, porque naqueles anos a maioria dos lares americanos estava a ser eletrificada e o rádio era o entretenimento de massas por excelência.
Esses rádios não demorariam muito a tornar-se obsoletos. Felizmente para os irmãos Galvin, a ideia de um dos seus funcionários viria a dar uma reviravolta no negócio, revolucionando o crescimento da indústria automóvel e das telecomunicações.
1930: A Motorola nos nossos carros

O grande salto ocorreu em 1930, quando a empresa lançou um dos seus produtos mais revolucionários: o rádio para automóveis.
Tudo começou com Elmer Wavering, um funcionário dos irmãos Galvin que observou que as pessoas costumavam sair para ver o pôr do sol nos seus carros, razão pela qual achou que seria uma boa ideia colocar música nos carros.
Naquela época, instalar um rádio num carro era um enorme desafio técnico. Os automóveis geravam interferências elétricas que tornavam quase impossível receber um sinal limpo e, além disso, a instalação era complicada e cara.
A empresa propôs-se a fabricar um modelo de teste, instalando-o dentro de um veículo e conseguindo que este finalmente funcionasse em movimento. E assim nasceu o primeiro rádio para automóvel e, com ele, a Motorola.
Origem do nome Motorola
Para dar nome a este novo produto, Paul Galvin combinou duas palavras: «motor» (por automóvel) e «ola» (sufixo comum em marcas de produtos de áudio da época, como a Victrola). Assim nasceu o nome Motorola, que evocava modernidade, velocidade e tecnologia. O nome teve tanto sucesso que, em 1947, a empresa mudou oficialmente o seu nome para o do seu produto estrela.
Surge a marca Motorola e o primeiro logótipo da Motorola
Lançamento do rádio para automóvel «Motorola»
Pouco tempo depois, foi organizada a Convenção Internacional de Automóveis da América do Norte, mas a empresa não conseguiu um stand para expor o seu produto. E os irmãos fundadores não podiam deixar passar a oportunidade, pelo que decidiram criar o seu próprio espaço no parque de estacionamento onde a exposição iria decorrer.
Além do sucesso que o seu dispositivo estava a ter, os fundadores não demoraram a perceber que havia muitas possibilidades para o aproveitar. Em 1936, a Motorola desenvolveu os seus primeiros equipamentos de rádio para a polícia. A cidade de Bowling Green, no Kentucky, foi uma das primeiras a adotar rádios de carro da Motorola para as suas patrulhas. Isto abriu uma linha de negócio extremamente lucrativa e estratégica que marcaria o rumo da empresa durante décadas: as comunicações para serviços de emergência e defesa.
1939: A Motorola na guerra
Em 1939, quando a guerra já assolava a Europa, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos percebeu a necessidade de um dispositivo que permitisse à infantaria comunicar-se no terreno sem depender de rádios montadas em veículos, que muitas vezes ficavam abandonadas na lama e na confusão da batalha.
O exército recorreu à empresa, que já tinha experiência em rádios para automóveis e para a polícia. A missão era clara, mas ambiciosa: desenvolver um rádio portátil, alimentado a bateria e resistente, que pudesse ser transportado ao ombro e utilizado em combate.
SCR-300: O Primeiro «Walkie-Talkie»
O nome «walkie-talkie» surgiu com este dispositivo, e por uma razão muito prática: o soldado literalmente «caminhava» (walk) com o rádio às costas enquanto «falava» (talk).
O SCR-300 era transportado nas costas como uma mochila, e o soldado utilizava um auricular e um microfone com fio. Não era propriamente leve: com os seus mais de 15 quilos, era um peso adicional considerável para a infantaria. Mas oferecia algo que nenhum outro rádio da época conseguia: comunicação clara e fiável em pleno campo de batalha, mesmo com interferências.
O SCR-300 entrou em ação pela primeira vez no Teatro do Pacífico em agosto de 1943, e um coronel informou ao general que «são exatamente o que é necessário para as comunicações na linha da frente». Pouco depois, seria utilizado em grande escala na Batalha da Normandia e na Campanha da Itália, tornando-se um «equipamento essencial» para evitar a confusão na Batalha das Ardenas.
SCR-536: O «Handie-Talkie» que Cabia na Mão
Em 1942, apenas um ano após o SCR-300, a empresa lançou o SCR-536, um dispositivo ainda mais revolucionário: o primeiro walkie-talkie que cabia inteiramente na mão.
O problema: o Exército não se interessou inicialmente. Consideravam que o SCR-536 era um «rádio de compromisso» porque o seu alcance era muito limitado: apenas 1,6 quilómetros em terreno aberto e apenas 300 metros em zonas arborizadas.
Mas a Motorola demonstrou que era capaz de fabricar um rádio AM bidirecional que pesava apenas 2,2 quilos e funcionava a pilhas. Quando o Exército percebeu que esse peso reduzido era ideal para os paraquedistas, que precisavam de extrema mobilidade, assinaram um contrato no início de 1941.
1940: O início de uma nova era para a empresa
Na década de 1940, ocorreram mudanças importantes na Motorola:
1943 A empresa entrou na bolsa de valores.
1947 O nome da empresa foi alterado de Galvin Manufacturing Company para Motorola.
1950 Entrou no campo da microeletrónica com os semicondutores.
Durante a década de 50, a Motorola começou a fabricar os seus próprios televisores, que tiveram muito sucesso devido ao preço, mas durante os anos 60 a divisão responsável pela sua fabricação foi vendida à Quasar (marca pertencente à Panasonic). Desta forma, a marca manteve-se forte e continuou a avançar no mercado das telecomunicações.
1960-1990: A Motorola na Lua

Um dos marcos mais importantes para a empresa foi fazer parte do programa espacial dos Estados Unidos durante vários anos. Graças aos equipamentos da Motorola, Neil Armstrong pôde proferir as suas famosas palavras ao pisar na Lua e os astronautas puderam manter-se em contacto com o centro de comando em Houston enquanto estavam no espaço.
A empresa desempenhou um papel crucial no programa, o que lhe serviria de campo de exploração no domínio dos satélites.
O coração das comunicações da Apollo 11 foi o Transponder Unificado de Banda S (USB), concebido e construído pela Divisão de Eletrónica Militar da Motorola.
Paralelamente, na década de 80, a tecnologia dos semicondutores e microprocessadores constituía o núcleo da empresa, uma vez que estava presente em todos os produtos, tais como: automóveis, computadores pessoais e videojogos.
Bravo da Motorola

Nos produtos de consumo, a Motorola obteve um grande sucesso nas vendas de dispositivos portáteis para o envio de mensagens de texto. O modelo Bravo da Motorola foi o número um em vendas no mercado dos Beepers (mensageiros).
Estes dispositivos são os antecessores dos telemóveis atuais, uma invenção revolucionária nas telecomunicações que colocaria a marca como protagonista principal.
1983: DynaTAC, o primeiro modelo da Motorola

O Motorola DynaTAC 8000X é um dispositivo que marcou um antes e um depois na história da tecnologia. Não foi o primeiro telemóvel da história (já existiam os «telemóveis de carro»), mas foi o primeiro telemóvel portátil comercializado e aquele que popularizou a ideia da comunicação sem fios a partir de qualquer lugar.
Chamava muito a atenção pela sua forma de tijolo; na verdade, pesava um quilo e custava 4.000 dólares.
Representava um modelo de última geração. Mas o seu sucesso viria através das múltiplas aparições nos filmes da época. Acabou por se tornar um objeto de desejo dos amantes da tecnologia.
Uma garantia curiosa que a empresa oferecia era fazer com que os seus produtos cumprissem a norma seis sigma, o que certifica que o produto funcionava em 99,99966% dos casos.
O DynaTAC foi um dos primeiros dispositivos portáteis a utilizar a tecnologia de telemóvel, permitindo aos utilizadores fazer chamadas sem estarem ligados a linhas telefónicas fixas. Apesar do seu elevado preço inicial e do seu tamanho pouco prático, o DynaTAC lançou as bases para a evolução da telefonia móvel rumo a dispositivos mais acessíveis e multifuncionais que hoje em dia são omnipresentes nas nossas vidas.
O StarTAC, o telemóvel de bolso!
O Motorola StarTAC foi o elegante e moderno sucessor que mostrou ao mundo que um telemóvel também podia ser pequeno, bonito e caber no bolso da camisa.
Lançado em janeiro de 1996, o StarTAC não é apenas um telemóvel em forma de concha. É, para muitos historiadores da tecnologia, o primeiro «telemóvel moderno» da história.
Este dobrava-se de cima para baixo e era mais pequeno e leve, tendo sido um sucesso na época.
O seu preço baixou para 1.000 dólares.
A Motorola conseguiu manter-se como líder no mercado dos telemóveis até 1998.
O StarTAC oferecia funcionalidades avançadas para a época, como enviar mensagens de texto, guardar contactos e fazer chamadas em conferência.
O primeiro Motorola RAZR: O mais elegante de sempre

Em 2004, surgiu a gama Razr V3, com dimensões de 98 x 53 x 13,9 milímetros e um peso de 95 gramas. O objetivo da Motorola era claro: o telemóvel mais fino do mundo. Com um aspeto metálico e um design que permitia dobrar-se, com um ecrã exterior.
Tinha um painel LCD, câmara e uma bateria de iões de lítio de 680 mAh.
Quando foi lançado, custava 500 dólares com contrato (cerca de 700-750 dólares atuais). Sem contrato, podia chegar aos 600-700 dólares. Era um telemóvel de executivos, estrelas de Hollywood e futebolistas de elite.
Paris Hilton, David Beckham, Beyoncé… todos o usavam. Aparecia em videoclipes, em tapetes vermelhos e nas mãos dos vilões de CSI: Miami.
Mas algo mudou em 2006-2007. A Motorola começou a baixar o preço. E baixou, e baixou, e baixou… Até que, em 2008, era possível encontrar um RAZR V3 por menos de 50 euros. De objeto de culto, passou a ser o telemóvel de «toda a gente», o que minou a sua exclusividade, mas disparou as vendas: foram vendidas mais de 130 milhões de unidades em todo o mundo.
O primeiro smartphone: o Motorola Droid é fabricado com teclado físico

Em 2009, o mundo debatia-se entre os ecrãs táteis do iPhone e os teclados físicos do BlackBerry. A Motorola decidiu não escolher: juntou tudo.
Teclado QWERTY deslizante: ao deslizar o ecrã para o lado, aparecia um teclado físico completo de quatro linhas. A sensação era como ter um mini-computador no bolso, ideal para escrever e-mails longos ou mensagens sem olhar para o ecrã
Ecrã tátil capacitivo de 3,7 polegadas: numa época em que 3,5 polegadas era o padrão, o Droid chegava com um ecrã maior e com uma resolução de 854×480 píxeis (WVGA), muito superior à do iPhone 3GS
O navegador era compatível com HTML5, o que o tornava o terminal «definitivo» para navegar na Internet.
Mas o verdadeiro protagonista não era o hardware, mas sim o que tinha por dentro. O Droid foi o primeiro telemóvel a ser lançado com o Android 2.0 (Eclair), uma versão que representou uma revolução pela liberdade que proporcionava.
A Motorola atualmente
Em 2014, a Lenovo adquiriu a Motorola e, desde então, revolucionou o mercado da gama média e baixa com aparelhos potentes a preços acessíveis. Desde então, o design da Lenovo foi aperfeiçoado e tem havido investimento em tecnologia, sobretudo nas câmaras, que são cada vez mais precisas e inteligentes.
Em 2019, o design em concha regressa e é lançado o primeiro Motorola RAZR com redes 5G e o primeiro ecrã dobrável. Em 2024, são lançados novos modelos Motorola RAZR com ecrãs OLED a 165 Hz, para satisfazer os mais exigentes em termos de design e tecnologia.
Em Espanha já estão disponíveis telemóveis com a mais recente tecnologia, como: Edge 70 Fusion, Moto G57 Power ou Moto G86 Power.
A Motorola utiliza versões do Android puro, sem modificações, e adiciona aplicações independentes como o Moto Voz e outros assistentes inteligentes para aumentar as funcionalidades que o Android não possui.
A gama Moto G: evoluiu em termos de processamento, sensores, capacidade de focagem mais rápida, maior nitidez, resolução, cores mais vivas e maior alcance na focagem de objetos distantes.
A gama Moto E: centra-se na eficiência energética e em baterias de maior duração.
A gama Motorola Edge: apresenta um design mais luxuoso com o máximo em termos de câmara e processador a um preço acessível. O objetivo é democratizar os telemóveis topo de gama. Este modelo conta com o que há de mais avançado em tecnologia e inteligência artificial.
A gama Motorola RAZR é o legado do design em forma de concha, que agora vem com ecrãs dobráveis e ecrã externo. Ecrã principal de 6,9“ e ecrã externo de 3,5”. Estes modelos contam com o que há de mais avançado em tecnologia e inteligência artificial.
Em 2026, a Motorola é uma marca de tecnologia de estilo de vida que decidiu enfrentar a Apple e a Samsung no terreno que melhor conhecem: a inovação com design. A sua estratégia é tripla e está a funcionar: dominar os dobráveis, conquistar o segmento «ultrapremium» e expandir o seu ecossistema de dispositivos conectados.
A sua quota mundial ronda os 5%, mas em países como o Brasil é a segunda maior, apenas atrás da Samsung. E com a chegada da gama Signature e do Razr Fold, o seu objetivo é claro: expandir-se no mercado de gama alta.
Atualmente e de olho no futuro, a Motorola prepara-se para novos projetos e modelos que irão incorporar Inteligência Artificial, Realidade Aumentada e Realidade Virtual.
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